Vejam bem, estávamos nascendo para a psicanálise e para isso tínhamos que entender muitos conceitos, iniciávamos uma fratura na maneira de pensar. Se antes tínhamos a certeza, a previsibilidade, o esperado, a natureza, o automatismo, a repetição, a infinidade, a falta de angústia, o oráculo, o absoluto, o paraíso, o gozo, o amparo, o silêncio, a inércia, a estabilidade, a paz, a necessidade, o objeto fixo; agora tínhamos a incerteza, a imprevisibilidade, o inesperado, a cultura, a autonomia, a inovação, a finitude, a angústia, o enigma, o relativo, o inferno, o desprazer, o desamparo, o ruído, o mutacional, a instabilidade, a guerra (conflito), o desejo, o objeto contigente. E este renascer não é fácil, se já fomos expulsos do útero materno uma vez, tivemos que ser expulsos pela segunda vez, abandonar o paraíso perdido. A invasão desta pressão que vem do corpo e está fora do aparelho psíquico, causa dor psíquica, causa angústia. “Não seio, logo penso” (frase dita em classe pelo professor Ede de Oliveira Silva). Tivemos que abandonar uma série de premissas que tínhamos como certas, elaborar lutos e a sucessão de perdas faz emergir as pulsões de morte, porque causam angústia. A noção de não viver na própria vida vincula-se à falta de identidade pessoal, à falta de desejo. A falta de desejo remete a questões muito primitivas, arcaicas mesmo, de não poder viver a ferida narcísica. É a ferida narcísica que dá lugar ao desejo, em outra linguagem, é a castração simbólica representada pelo pai na relação fusional materna/bebê, que dá lugar à ferida narcísica. É a ferida narcísica, o espaço de desejo, que dá ao sujeito a pré-condição de escolher, desejar, buscar sempre uma completude que, irremediavelmente, não se dará nunca mais, mas que é a mola propulsora da vida, propiciando ao sujeito a busca da realização através dos estudos, do trabalho e na vida pessoal; ufa, chegamos à adolescência no estudo da psicanálise!
A pulsão de morte é traumática por natureza porque não tem um escudo protetor para o que vem de dentro do corpo. O aparelho psíquico está desamparado porque a pulsão já está presente desde o nascimento; para fazer ligação preciso ter uma experiência com o objeto. A qualificação da pulsão vai ser feita dentro do aparelho e na relação com o objeto; no encontro da pulsão com o objeto é que se dá a formação do aparelho.
O aparelho psíquico é um aparelho de captura dessa força, Drang, que está constantemente pressionando, mas é também um aparelho que destina; tem de estar o tempo todo organizando para dar conta dessa força constante e, tenta administrar através de descargas em momentos que são possíveis, dando-lhe destinos pulsionais. Há quatro maneiras de dar destinos a estas cargas, também chamados de defesas: reversão ao seu oposto, retorno ao próprio eu, repressão e sublimação. No primeiro destino existe um movimento da pulsão parcial, passando da atividade para a passividade e uma mudança de conteúdo, do voyerismo para o exibicionismo por exemplo. No segundo destino há uma volta a si mesmo, do masoquismo para o sadismo. No terceiro, o recalque faz parte da organização do aparelho psíquico e como já foi dito anteriormente há um conflito entre instâncias, desejo versus defesa. E na quarta, o destino da pulsão volta-se para um novo alvo não sexual, principalmente para atividade artística e a investigação intelectual. Foi o que o crioulo doido fez, sublimou, voltando-se para uma criação artística, fazendo do seu samba uma metáfora, um chiste.
O conceito de pulsão de morte, tão controvertido e especulativo, como uma força silenciosa que subjaz que é a raiz e a base dos processos psíquicos representacionais deu alento a um conhecimento mais profundo dos processos mentais. Para uma nova teoria pulsional, uma nova tópica teria de ser criada, mais ampla, mas abrangente que suportasse esses acréscimos.
A pulsão de morte, essa força viva, ainda não representada, seria a verdadeira pulsão. Uma energia livre de qualquer representante seria o atual, o novo, o ainda indivisível e irrepresentável. O trabalho maior do aparelho psíquico seria o de ligar esta força e transformá-la em uma já ligada aos seus representantes psíquicos, agora sob o império do princípio do prazer, com as leis correspondentes. Segundo Ede de Oliveira Silva, apud Garcia Roza, 1990: “A instalação dessa ordem ainda inicialmente anárquica inaugura o domínio de Eros. O aparelho psíquico (abrangendo o representado e o não representado) estaria regido por dois princípios: o princípio do além do princípio do prazer (Nirvana) onde reina o caos, o gozo, a desordem, o novo, a liberdade total, um verdadeiro caldo pulsional sob a regência da pulsão de morte; e o princípio do prazer, lugar da ordem e do prazer, do passado e da energia ligada, sob a regência da pulsão de vida.” No samba do crioulo doido vê-se o jogo entre Eros e Thanatos. Aparentemente os seus versos não têm ligação nenhuma com os fatos históricos e os personagens estão desconexos. Mas à medida que vemos uma vontade de quebrar com a ordem estabelecida, em fazer um chiste, há um destino dado à carga pulsional, que é o de sublimar, de criar algo novo, criticando-se um regulamento que submetia o sujeito e tentava enquadrar a sua criação. Observando-se, neste sentido a fusão das duas forças numa só, a mesma que pressiona que traumatiza, também é a que faz mover à procura de uma solução, de uma criação.
No texto de Joel Birman, “Psicanálise Uma Estilística da Existência?”, ele coloca como obstáculos atuais da psicanálise o masoquismo e o fim da análise. O masoquismo é uma problemática que se coloca tanto no nível de clínica, como a nível institucional. O masoquismo emanente (erógeno – uma parte da pulsão de morte que foi defletida permaneceu no ego; há uma dor, mas também há um prazer pela dor) dificulta o processo de elaboração, havendo maior possibilidade de desenvolver o masoquismo feminino (fálico), ou o masoquismo moral. Impedindo o fim da cura e também à transmissão da psicanálise em decorrência da posição identificatória assumida pelo sujeito de servidão voluntária. No masoquismo o sujeito se submete para ser aceito, para ser amado. O sambista também se submete para ser aceito pela comissão julgadora. Há uma relação sadomasoquista entre o regulamento que é estabelecido e o compositor que se submete ao mesmo.
No nível institucional, as diferentes formas de servidão aos mestres e aos poderes psicanalíticos que estão presentes em quase todos os grupos de analistas, também impedem a formação. Um princípio de base não pode ser transmitido ao sujeito, que é justamente o da ética, o respeito à individualidade. O encontro do sujeito com o seu desejo deveria produzir algo totalmente criativo, diferente; se passa justamente ao contrário. Traços masoquistas são bastante salientes e severas as perturbações depressivas, notando-se uma imensa arrogância que traduz os estragos deploráveis da onipotência narcísica por parte dos analistas, que é segredo de polichinelo. Justamente a instituição que nos compele a fazer análise com a promessa de sermos analistas, paradoxo contra a ética, está composta por um grupo de analistas, na sua maioria, que não foram castrados simbolicamente pela análise.
Iniciei o curso fazendo transferências positivas e negativas com os professores, ligando alguns aspectos desses aos meus representantes internos parentais. À medida que o curso avançou e fui compreendendo o processo que estava vivendo, estas transferências foram se modificando. Assim como modificou a visão da realização deste trabalho, se antes era algo inoperante, difícil, arbitrário e impositivo; realizá-lo fez com que percebesse o quanto aprendi e o quanto ainda tenho que fazê-lo. E como disse Maria Cristina Perdomo, “sublimar é o melhor destino”, numa tentativa de organizar o nosso aparelho psíquico, mesmo que seja através de um chiste. Voltamos ao início do trabalho ao retorno do reprimido, à formação de compromisso.
Como o crioulo teve que assimilar tanta história do Brasil para poder dar conta de realizar um samba enredo; espero durante estes quatro anos de formação dar conta de tantos conceitos que tive que articular, e poder passar de crioulo doido para crioulo entendido.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.
Para quem não conhece O Samba do Crioulo Doido aqui está ele na íntegra:
Samba do Crioulo Doido – 1968
(Sérgio Porto)
Prefácio – Stanislaw Ponte Preta
Este é o samba do crioulo doido. A estória de um compositor que durante muitos anos obedeceu ao regulamento e só fez samba sobre a história do Brasil. E tome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Xica da Silva. E o coitado do crioulo teve que aprender tudo isto para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram um tema complicado: Atual Conjuntura. Ah! Aí o crioulo endoidou de vez e saiu este samba.
Foi em Diamantina,
onde nasceu J.K.
que a princesa Leopoldina,
arresolveu se casar.
Mas Xica da Silva,
tinha outros pretendentes
e obrigou a princesa,
a se casar com Tiradentes.
La, la, la, ia, la, la.
O bode que deu vou te contar.
Joaquim José,
que também é da Silva Xavier,
queria ser dono do mundo,
e se elegeu Pedro II.
Das estradas de Minas
seguiu prá São Paulo
e falou com Anchieta.
O vigário dos índios,
aliou-se a Dom Pedro
e acabou com a falseta.
Da união destes dois
ficou resolvida a questão,
e foi proclamada a escravidão.
Assim se conta esta história,
que é dos dois a maior glória.
A Leopoldina virou trem,
e Dom Pedro é uma estação também.
O, o, o o o o,
O trem tá atrasado, ou já passou.
Referências Bibliográficas
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_________ – Carta 52 (06/12/1896) – Vol I – pag. 254 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
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_________ – Interpretação dos Sonhos – Vol. V – Cap. 7 – pag. 489 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
_________ – Inconsciente – Vol. XIV – 198 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
_________ – As Neuropsicoses de Defesa – Vol. III – pág. 57 –Edição Standard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
_________ – Os Instintos e suas Vicissitudes – Vol. IV – pag. 154 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
_________ – Além do Princípio do Prazer – Vol. XVIII – pag. 13 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
_________ – Sobre os Sonhos – Vol. V – pag. 571 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
_________ – Esquecimento dos Sonhos – Vol. V– pag. 471 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
_________ – Realização de Desejos – Vol. V – pag. 503 – Edição Standard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.
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Nasio, J.D. – O Prazer de Ler Freud – Jorge Zahar Editor – RJ, 1999.
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Silva, E. O. – Uma Viagem pela Metapsicologia Freudiana – Boletim do Formação em Psicanálise – Ano VIII – Vol. VIII – Nº. 1 – Janeiro/Junho 1999.
Anotações feitas em aulas dos seminários teóricos dos professores Maria Cristina Perdomo; Maria Teresa S. Rocco; Ede de Oliveira Silva e Durval M. Nogueira Filho, Instituto Sedes Sapientiae.