Cada transcrição subsequente inibe a anterior e lhe retira o processo de excitação. Uma falha na tradução, recalcamento, produz desprazer, provocando distúrbio de pensamento para não permitir o trabalho de tradução. Assim, no caso do nosso compositor, ele comete atos falhos, faz deslocamentos e condensações: “Joaquim José, que também é da Silva Xavier, queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro II. Das estradas de Minas, seguiu pra São Paulo e falou com Anchieta, o vigário dos índios aliou-se a D. Pedro e acabou com a falseta. Da união deles dois ficou resolvida a questão e foi proclamada a escravidão.” Tiradentes, que já havia morrido, se elege um imperador (um deslocamento e uma condensação). Proclamada a escravidão, em vez de abolição (um ato falho).
Freud cada vez mais atinha-se às formações do Inconsciente numa tentativa de captar o seu modo de funcionamento; sintomas, atos falhos, sonhos e chistes era sua matéria prima tanto para reformular o seu aporte teórico à medida que ia investigando, como para decifrar os pensamentos oníricos de seus pacientes. No capítulo VII da Interpretação dos Sonhos, 1900, uma linguagem psicológica foi privilegiada, afastando-se de um corpo biológico da etapa anterior. Estuda o aparelho psíquico representacional, dirigindo-se para o representado, para o simbolizado. Tudo já estaria inscrito psiquicamente. Estava lidando com o representado que eqüivalia ao passado do paciente. O sujeito psíquico estava determinado como nos primeiros modelos do aparelho psíquico. É como se cada quantidade energética que aportasse ao aparelho já existisse o seu representante correspondente. O sujeito estaria amparado por esse automatismo. Estamos diante do modelo dinâmico, onde o que comanda o aparelho são as representações* (*vorstellung – representação = designa “aquilo que se representa, o que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento” e “em especial a reprodução de uma representação anterior”).
Ao estudar os sonhos (fenômeno universal), Freud descobriu a linguagem onírica, e a compreensão dos sonhos, através de sua análise, era a via régia para o inconsciente. Ele entende os sonhos como guardiões do sono. O sono pode ser perturbado por estímulos externos como um som forte, por exemplo. O sujeito que dorme pode produzir um sonho no qual o ruído é incorporado de modo a não incomodar o sono, pois além de incorporar ao sonho, a perturbação é removida através de uma explicação. Porém, mais freqüentemente, o sono é perturbado por estímulos internos. Os fisiológicos, tais como sede, fome, etc., que também são incorporados ao sonho, de modo a prolongar o sono. Mas, principalmente, os desejos não satisfeitos e conflitos não resolvidos dão origem a tensões internas que poderiam perturbar o sono. No sono, nossa relação com a realidade externa é temporariamente suspensa. Parte da censura interna é relaxada e ocorre regressão, de forma que desejos arcaicos inconscientes esforçam-se por encontrar uma expressão. A motilidade e a ação ficam suspensas e os desejos reprimidos buscam expressão “numa experiência alucinatória benigna”.
A linguagem comum reconhece o aspecto de realização de desejo dos sonhos ao usar o mesmo termo “sonho”, tanto para o devaneio, como para o sonho que temos enquanto dormimos. Mas há uma diferença fundamental entre os dois: o devaneio expressa desejos conscientes, organizados, racionalizados, aceitáveis para a nossa consciência desperta; no sonho, ao contrário, são precisamente os desejos* reprimidos que perturbam nossa vida psíquica, que buscam satisfação. (*wunsch; begierde; lust – desejo = na concepção dinâmica freudiana, um dos pólos de conflito defensivo, o desejo inconsciente tende a realizar-se restabelecendo, segundo as leis do processo primário, os sinais ligados às primeiras vivências de satisfação. A psicanálise mostrou no modelo do sonho, como o desejo se encontra nos sintomas sob a forma de compromisso).
Na época em que escreveu “A Interpretação dos Sonhos” Freud pensava que os sonhos eram predominantemente de desejos inconscientes (reprimidos) de natureza sexual. Posteriormente adicionou os de natureza agressiva aos de natureza sexual. Para ele, desejos bastante poderosos e dinâmicos e, no entanto, reprimidos, invariavelmente tem suas raízes em conflitos infantis (reprimidos na infância), mas em contínua atividade no inconsciente, por não encontrarem expressão na realidade, expressam-se por vias outra, sendo uma delas os sonhos.
O sonho quase sempre está ligado a algum evento ocorrido durante o dia, os restos diurnos. É possível que tal evento seja suficientemente importante para que torne compreensível que influencie o sonho. Mas, seja ele importante ou trivial, o resto ou resíduo diurno é um evento que de alguma forma se liga, na mente do sonhador, a algum conflito inconsciente mais profundo, vindo a representá-lo (de alguma forma, o resíduo diurno que desencadeia o sonho é similar a um acontecimento que poderia ter dado início a um sintoma neurótico ou a uma neurose).
A não satisfação dos desejos profundamente arraigados dá origem a tensões internas. Sua satisfação, entretanto, daria origem à ansiedade e culpa. Não é sem razão que esses desejos foram reprimidos em sua origem.
Freud chama de censor, ou censura o agente repressor que proíbe a satisfação de desejos inaceitáveis para a consciência e descreve o conflito como sendo entre os desejos inconscientes que lutam por expressar e satisfazer-se no sonho e a censura que proíbe tal satisfação.
O ego não desaparece no sono. Ele tem de se proteger tanto da tensão que surge de desejos insatisfeitos, quanto da ansiedade e da culpa que acompanham a satisfação desses desejos. Freud concebe os sonhos como o resultado de um compromisso entre o reprimido e as forças repressoras, como um modo de desviar-se da censura.
O sonho é produzido pelo trabalho onírico. O trabalho ou elaboração onírica converte os pensamentos oníricos latentes inaceitáveis para o ego, mesmo no estado de sono, no aparentemente inócuo conteúdo manifesto do sonho (o trabalho ou elaboração onírica é a primeira descrição de Freud de um conceito mais amplo e fundamental para a compreensão da psicanálise: o de trabalho psíquico).
O trabalho ou elaboração onírica visa satisfazer os desejos inconscientes inaceitáveis e conflitantes, disfarçando-os, o que envolve um modo particular de expressão, a linguagem onírica. Esta é constituída por mecanismos tais como: condensação, deslocamento, representação indireta de vários tipos, simbolismo.
No trabalho do sonho está em ação uma força psíquica que despoja os elementos com alto valor psíquico de sua intensidade e por meio da sobredeterminação, cria, a partir de elementos de baixo valor psíquico, novos valores, que depois penetram no conteúdo do sonho. A conseqüência do deslocamento é que o conteúdo do sonho não mais se assemelha ao núcleo dos pensamentos do sonho, e que este não representa mais do que uma distorção do desejo do sonho que existe no inconsciente.
A condensação é um aspecto invariável dos sonhos. Por mais curto que seja o sonho, os pensamentos latentes que ele contém estendem-se amplamente e muitos pensamentos e desejos, às vezes contraditórios, estão contidos no sonho como um todo e em seus vários elementos. Trata-se de vários fios associativos que se originam de diferentes impulsos e tendências de pensamentos que convergem e são expressos num elemento condensado.
A representação indireta pode ocorrer de várias formas: por semelhança, pela posse de um atributo comum, pelo uso de uma parte pelo todo, por oposição, por conexão verbal, etc.. Cada sonhador tem um estilo próprio e o estilo em si revela sua personalidade, reflete a ampla combinação de relações objetais, ansiedades e defesas que molda a personalidade de alguém. Todos os diversos métodos de representação de uma idéia no sonho constituem o trabalho onírico. No trabalho do compositor também há representação indireta, vejamos os seus últimos versos: “A Leopoldina virou trem e D. Pedro é uma estação também” (representação indireta pela posse de um atributo comum, o mesmo nome).
Há outro fator que encobre o pensamento onírico e opera depois que o indivíduo acorda: a distorção na recordação efetiva do sonho quando o indivíduo está desperto, a elaboração secundária. À medida que recordamos, distorcemos o sonho. Essa elaboração secundária é a continuação da repressão dos pensamentos latentes do sonho. Freud também descreve quão intolerável é para a nossa mente desperta a falta de lógica, o caos e a desordem. Por isso racionalizamos para fazer sentido aos nossos sonhos. Essa necessidade de construir uma história lógica é muito semelhante à resistência contra pensamentos inconscientes latentes do sonho. O crioulo tenta fazer do seu devaneio, uma história que tem começo, meio e fim; embora os fatos históricos estejam misturados, não apenas na ordem cronológica dos acontecimentos, mas também pela não conexão dos personagens.
Freud considerou três tipos de sonho:
- Sonhos não disfarçados de satisfação de desejo, característicos de criança;
- Sonhos que envolvem trabalho onírico e a satisfação disfarçada de desejos inconscientes;
- Sonhos que parecem se opor à teoria da satisfação de desejo, ou seja, sonhos de ansiedade e punição. Os sonhos de ansiedade são uma tentativa de disfarce que não foi bem sucedida, o ego responde com ansiedade e acorda o sonhador. Quanto aos sonhos de punição, Freud nos lembra que os sonhos são o resultado de diversos compromissos entre o censor e os desejos, e nos últimos, é o censor que tem vantagem.
O ato falho* é outra formação de compromisso entre a intenção consciente do indivíduo e o recalcado, bastando lembrar o que Freud nos fala em seu texto, Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901): é, num outro plano, um ato bem sucedido; o desejo inconsciente realiza-se nele de uma forma muitas vezes muito manifesta. A expressão “ato falhado” traduz a palavra alemã fehlleistung, que engloba não apenas ações strito sensu, mas toda a espécie de erros, de lapsos na palavra e no funcionamento psíquico (*ato em que o resultado explicitamente visado não é atingido, antes se acha substituído por outro. Fala-se de atos falhados, não para designar o conjunto das falhas da palavra, da memória e da ação, mas para os comportamentos em o indivíduo é habitualmente capaz de obter êxito, e cujo fracasso é tentado a atribuir apenas à sua falta de atenção ou ao acaso. Freud demonstrou que os atos falhados eram, tal como os sintomas, formação de compromisso entre a intenção consciente do indivíduo e o recalcado). No verso em que o compositor comete um ato falho: “Da união deles dois ficou resolvida a questão e foi proclamada a escravidão”; onde troca a palavra abolição por escravidão, ele estava querendo dizer da sua condição de ter que se submeter aos delírios de uma comissão julgadora que impôs um tema tão difícil para um samba enredo de escola de samba.
O chiste (1905) também é uma formação do Inconsciente, colocando-se como uma formação de compromisso. Porém no chiste ocorre um drible interessante, não se fala sobre o que é reprimido, substituindo por outra palavra que dá outro sentido. Na formação do chiste ocorrem processos de condensação, com ou sem a formação de substitutivos, de representação pelo nonsense ou pelo oposto, de representação indireta, mostrando uma concordância muito abrangente com os processos de elaboração onírica. Para a existência do chiste há a necessidade de se ter três pessoas: o locutor, que produz o chiste; a pessoa de quem se fala, ou melhor, de quem se ridiculariza; e o cúmplice do primeiro, quem ouve, identifica e compartilha da mesma linguagem que o locutor. No samba do crioulo doido, o sambista é o locutor, quem faz a história do Brasil virar um chiste; os personagens da nossa história são os ridicularizados, tentando-se ridicularizar também uma instituição, o regulamento da comissão julgadora; e nós que ouvimos a música, identificamos, compartilhamos da linguagem do compositor, somos os cúmplices.
Enquanto o sonho é a expressão da realização de um desejo e de uma evitação do desprazer, que leva a uma regressão para o pensamento em imagens, o chiste é produtor de prazer. Recorre-se aos mecanismos de condensação e deslocamento, caracteriza-se, antes de tudo, pelo exercício da função lúdica da linguagem, cujo primeiro estádio seria a brincadeira infantil e o segundo, o gracejo. Dentre os diferentes Witze, Freud distingue os inofensivos dos tendenciosos, tendo estes por móbil a agressividade, a obscenidade ou o cinismo. Além desses, existe um quarto móbil, mais terrível que o outro três: o ceticismo. Os chistes desse registro empregam o contra-senso e atacam não uma pessoa ou uma instituição, mas a certeza do juízo. Mentem quando dizem a verdade e dizem a verdade através da mentira. No samba o compositor usa do cinismo para atacar uma instituição, o regulamento da comissão julgadora a qual tinha que se submeter.
Não foi à toa que o meu inconsciente pinçou na minha memória esse samba para tentar articular estes conceitos; primeiro como Freud e Lacan, gosto muito de chistes, talvez por me remeter às brincadeiras infantis e por gostar de gracejos; segundo, que enquanto representantes de uma instituição, os professores que fizeram esta proposta de trabalho, como falei no início, estavam, provavelmente, com o pensamento em alunos de quarto ano, talvez por isso a exigência que teríamos que assimilar em tão pouco tempo conceitos que ainda necessitavam ser digeridos.
Continuação da publicação anterior, por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu. Ainda teremos uma terceira parte, onde incluirei as referências bibliográficas.