UMA TENTATIVA DE ARTICULAR OS CONCEITOS DE PULSÃO DE MORTE, DESEJO, INCONSCIENTE E FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE
Quando li a biografia de Sigmund Freud e constatei que em apenas oito meses foi nos dado ler e assimilar uma teoria que se inicia em 1885, desde a estada de Freud em Paris em companhia de Charcot, a 1920 com o texto “Além do Princípio do Prazer” e da descoberta do conceito de compulsão à repetição, pensei: “vou endoidar fazendo esse trabalho!” Minha memória pinçou de algum arquivo remoto o “Samba do Crioulo Doido”. Um compositor que por vários anos seguiu o regulamento e só fez samba sobre a história do Brasil: Inconfidência Mineira, Abolição, Proclamação da República, Xica da Silva.. E o coitado do crioulo teve que aprender tudo isto para o enredo da escola. Até que em determinado ano escolheram um tema complicado: “Atual Conjuntura” * (*1-situação nascida dum encontro de circunstâncias e considerada como um ponto de partida de uma evolução, uma ação, um fato; 2-lance difícil). Ah! Aí o crioulo endoidou de vez!
Assim estava eu, tentando articular um conjunto de conceitos importantes que Freud, considerado um gênio, levou 35 anos para criá-los, a partir de observações clínicas e trocas teóricas com seus amigos médicos e discípulos: levantando hipóteses sobre o que esteve presenciando e que tipo de pistas o levou a formular estas ou aquelas proposições, como só uma mente científica e original poderia chegar a tais conclusões. E, mais tarde, até reformular ou refutá-las, porque a prática clínica ia lhe mostrando outros aspectos que não havia percebido, ou sobre os quais não havia pensado. Sentia-me como o sambista da música que estudou conceitos separados e que agora teria que articulá-los. Esperava não entrar em delírios e poder cumprir o meu papel de aprendiz. Porque convenhamos é “um lance difícil”, “um ponto de partida de uma evolução” que leva muito mais tempo do que apenas oito meses.
Embarquei na viagem de Freud e comecei com a sua primeira descoberta, na sua permanência no Hospice de La Salpêtrière com Charcot, os sintomas* histéricos. (*Symptombildung = Sintoma – expressão utilizada para designar o fato de o sintoma psiconeurótico ser resultado de um processo especial, de uma elaboração psíquica, o retorno do recalcado).
Charcot se afastou do estudo das doenças nervosas que se baseavam em alterações orgânicas e estava se dedicando exclusivamente à pesquisa das neuroses, especialmente da histeria. Freud investigou os ataques histéricos segundo um critério diferente do descritivo. Para ele, o ponto central de um ataque histérico é uma lembrança, a revivência alucinatória de uma cena que é significativa para o desencadeamento da doença. Com grande freqüência é algum fato da infância que estabelece um sintoma, mais ou menos grave, que persiste durante os anos subsequentes. O conteúdo da lembrança geralmente é ou um trauma* psíquico que, por sua intensidade, é capaz de provocar a irrupção da histeria no paciente, ou é um evento, que devido a sua ocorrência em momento particular, tornou-se um trauma. (*Trauma = acontecimento da vida do indivíduo que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se acha o indivíduo de lhe responder de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogênicos duradouros que provoca na organização psíquica. Em termos econômicos, o traumatismo caracteriza-se por um afluxo de excitações que é excessivo, relativamente à tolerância do indivíduo e à sua capacidade de dominar e de elaborar psiquicamente estas excitações). Foi o que ocorreu com o nosso sambista, acostumado a pesquisar sobre um único tema, quando lhe pedem um conjunto de circunstâncias atuais, um ponto de partida de uma evolução, ou seja, uma articulação, as excitações invadem o seu psiquismo, misturando os fatos e apresentando-os como se estivesse delirando ou sonhando.
Sintomas: nevralgias, anestesias, contraturas, paralisias, ataques histéricos e convulsões epileptóides, petit mal, vômitos crônicos e anorexia, perturbação da visão, alucinações visuais. Pode haver uma relação simbólica* entre a causa precipitante e o fenômeno patológico; uma relação do tipo que as pessoas saudáveis formam nos sonhos. (*symbolik – simbolismo = em sentido lato, modo de representação indireta e figurada de uma idéia, de um conflito, de um desejo inconsciente: neste sentido, podemos em psicanálise considerar qualquer formação substitutiva. Em sentido restrito, modo de representação que se distingue principalmente pela constância da relação entre o símbolo e o simbolizado inconsciente; essa constância encontra-se, não apenas no mesmo indivíduo e de um indivíduo para outro, mas nos domínios mais diversos – mito, religião, folclore, linguagem, etc. – e nas áreas culturais mais distantes entre si).
Na neurose traumática a causa atuante da doença não é o dano físico insignificante, mas o afeto do susto, o trauma psíquico. Na histeria comum não é rara a ocorrência de vários traumas parciais que forma um grupo de causas desencadeadoras (a sobredeterminação do sintoma).
Cada sintoma histérico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, quando se conseguia trazer à luz com clareza a lembrança do fato que o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara, e quando o paciente havia descrito esse fato com o maior número de detalhes possível e traduzido o afeto em palavras – os histéricos sofrem principalmente de reminiscências. O esquecimento das lembranças é intencional e desejado e seu êxito é aparente. As experiências que desempenharam um papel patogênico importante são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas; quando ele é incapaz de relembrá-las.
O uso da linguagem passa a ter uma relevância já nessa época, chamando a atenção para algumas expressões como: desabafar pelo pranto, desabafar através de cólera, esvair-se em cólera. Quando a reação é reprimida, o afeto permanece vinculado à lembrança. A linguagem serve de substituto para a ação; com a sua ajuda um afeto pode ser ab-reagido quase com a mesma eficácia. Uma pessoa normal é capaz de provocar o desaparecimento do afeto concomitante por meio do processo de associação. No samba, o compositor faz desaparecer os afetos gerados pela submissão, usando uma linguagem figurada, criando chistes.
Parece que essas lembranças correspondem a traumas que não foram suficientemente ab-reagidos, e se penetramos mais fundo nos motivos que impediram isso, encontraremos pelo menos dois grupos de condições sob as quais a reação ao trauma deixa de ocorrer. No primeiro grupo em que os pacientes não reagiram a um trauma psíquico porque a natureza do trauma não comportava reação. Ex. perda de um ente querido; delírios histéricos de mulheres que guardam a castidade e de crianças bem educadas. No segundo grupo é determinado não pelo conteúdo das lembranças, mas pelos estados psíquicos em que o paciente recebeu as experiências em questão.
Por debaixo dos sintomas histéricos, ou psiconeuróticos, Freud descobre que existe um conflito psíquico, que mantém o afeto* e as representações não ab-reagidas quietas, uma incompatibilidade entre um afeto e uma idéia, a moralidade versus o erótico por exemplo. (*affekt – afeto = termo que a psicanálise foi buscar da terminologia psicológica alemã e que exprime qualquer estado afetivo penoso ou agradável, vago ou qualificado, quer se apresente sob a forma de uma descarga maciça, quer como tonalidade geral. Segundo Freud, toda a pulsão se exprime nos dois registros do afeto e da representação. O afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional e das suas variações.) Por isso os psiconeuróticos necessitam recalcar* suas lembranças que tanto os incomodam, criando uma barreira ao redor destes corpos estranhos para se defender da dor psíquica que seria mobilizada pela sua ativação, uma formação de compromisso. (*verdrängung – recalcamento ou recalque = no sentido próprio: operação pela qual o indivíduo procura repelir ou manter no inconsciente, representação – pensamentos, imagens, recordações – ligadas a uma pulsão. O recalcamento produz-se nos casos em que a satisfação de uma pulsão – susceptível de por si mesma proporciona prazer – ameaçaria provocar desprazer relativamente a outras exigências. Pode ser considerado um processo psíquico universal na medida em que estaria na origem da constituição do Inconsciente como domínio separado do resto do psiquismo).
O sintoma psiconeurótico é uma falsa conexão, é uma tentativa de ligar, mesmo sendo uma defesa, uma formação de compromisso*. (*kompromissbildung – formação de compromisso = forma que o recalcado vai buscar para ser admitido no consciente. Retornando no sintoma, no sonho, e, mais geralmente, em qualquer produção do inconsciente: as representações recalcadas são então deformadas pela defesa ao ponto de serem irreconhecíveis. Na mesma formação podem assim satisfazer-se – num mesmo compromisso – simultaneamente o desejo inconsciente e as exigências defensivas). Na tentativa de se defender da dor psíquica, como o afeto ligado á representação não pode ser eliminado, o eu transforma essa representação poderosa numa representação fraca, retirando-lhe o afeto, a soma da excitação, catexia, do qual está carregada. A representação fraca não tem nenhuma exigência a fazer ao trabalho da associação. Mas a soma de excitação desvinculada dela tem que ser utilizada de alguma outra forma.
Na histeria a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua soma de excitação em alguma coisa somática; Freud propõe o nome a este fenômeno de conversão. E diz que o fator característico da histeria não é a divisão da consciência. Mas a capacidade de conversão, como parte importante da predisposição para a histeria; uma aptidão psicofísica para transpor enormes somas de excitação para inervação somática.
A representação enfraquecida persiste na consciência separada de qualquer associação. Mas seu afeto, livre, liga-se a outras representações que não são incompatíveis em si mesmas e graças a essa falsa ligação tais representações se transformam em representações obsessivas. A vida sexual traz em si as mais numerosas oportunidades para o surgimento de representações incompatíveis. A obsessão representa um substituto ou sucedâneo da representação sexual incompatível, tendo tomado seu lugar na consciência para depois reprimir. As representações obsessivas e as representações sexuais de caráter aflitivo ocorrem simultaneamente.
A angústia liberada cuja origem sexual não deve ser lembrada pelo paciente irá apoderar-se das fobias primárias comuns da espécie humana, relacionadas com animais, tempestades, escuridão, ou de coisas associadas com o que é sexual: micção, defecação, a sujeira e o contágio.
Há uma espécie de defesa muito mais poderosa e bem sucedida; nela, o eu rejeita a representação incompatível justamente com o seu afeto e se comporta como se a representação jamais lhe tivesse ocorrido. Porém a partir do momento em que isso é conseguido, o sujeito fica numa psicose que só pode ser qualificada como “confusão alucinatória”. O eu rompe com a representação incompatível, esta fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade, à medida que o eu obtém esse resultado, ele se desliga total ou parcialmente da realidade. O que aconteceu com o compositor, o crioulo doido. Vejamos alguns versos de seu samba: “Foi em Diamantina, onde nasceu J.K., que a princesa Leopoldina arresolveu se casar. Mas Xica da Silva, tinha outros pretendentes, e obrigou a princesa a se casar com Tiradentes.” Ele mistura acontecimentos mais atuais com antigos, troca a hierarquia dos personagens e subverte fatos históricos.
Freud declara que a teoria do recalcamento, ou defesa, para dar-lhe um nome alternativo, é a pedra angular sobre qual repousa toda a estrutura da psicanálise. (1894)
Então em 1895, Freud, perguntando-se sobre o recalcamento, os sintomas e os conflitos psíquicos, escreve o Projeto para uma Psicologia Científica. Segundo o que foi dito na aula do professor Durval, apresenta duas razões na formulação de uma teoria científica, que dará o nome de Metapsicologia* (*palavra que designa uma nova psicologia que privilegia os processos psíquicos que se davam fora da consciência.):
- Primeira tentativa de Freud, em reunir certo saber no campo simbólico, da linguagem; como se poderia pensar a respeito do sintoma nervoso na época – aparelho psíquico, primeira tópica (Inconsciente, Pré-Consciente, Consciente).
- Esforço freudiano em desenvolver aspectos que pudessem dar conta dos conceitos de sintoma, ato falho, recalque; vínculo com algo da representação que está fora da associabilidade, da ordem do esquecido. Freud começa a falar que o esquecido não quer dizer ineficiente é algo que faz o sujeito sofrer. Se um terapeuta consegue que o sujeito fale sobre o sofrimento, ele consegue fazer com que este sintoma desapareça; o que Freud denomina de método catártico (que produz uma catarse junto à palavra, se descarrega).
O inconsciente, neste momento, era formado por núcleos traumáticos e o objetivo específico do processo terapêutico era resgatar estas reminiscências e trazê-las à consciência. Sob a influência da medicina, Freud utilizava os seus conhecimentos, para explicar de um modo genético o funcionamento do cérebro de uma pessoa normal. Usava a unidade anatômica cerebral, os neurônios e seus processos dendríticos e axônicos e formulava a hipótese de uma quantidade circulando neles e nas comunicações entre eles. Utilizava o modelo do arco reflexo, onde o estímulo que entrava não tinha dificuldade de ser escoado totalmente. Porém este modelo era incompatível com a condição de vida biológica e do aparelho cerebral. O modelo de um aparelho que funcionasse como um neurônio com sua inércia de repouso seria incompatível face às exigências do processo vital.
Em 06/12/1896, na carta 52 escrita à Fliess, Freud modifica o modo de funcionamento do aparelho psíquico, apresentando uma característica menos neurológica e mais psíquica. O aparelho psíquico se gera por estratificação; há uma gênese, essa não é inata. Há a possibilidade de perceber, registrar, armazenar, mas vamos construindo-o, de tempos em tempos sofre rearranjos da estratificação. O material presente em traços de memória estaria sujeito a uma retranscrição. Essas retranscrições seriam as representações que ele divide em três tipos:
- W – neurônios em que se originam as percepções;
- Wz – indicação da percepção, visto como primeiro registro; incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações por simultaneidade;
- Ub – (inconsciência) é o segundo registro, lembranças conceituais, sem acesso a consciência; processo primário* (* do ponto de vista tópico – caracteriza o sistema inconsciente; do ponto de vista econômico- dinâmico – a energia psíquica escoa-se livremente, passando sem barreiras de uma representação para outra segundo os mecanismos de deslocamento e de condensação; tende a reinvestir plenamente as representações ligadas à vivências de satisfação constitutivas do desejo – alucinação primitiva).
- Vb – (pré-conciência) terceira transcrição, ligada às representações verbais e correspondendo ao nosso ego, reconhecido como tal; processo secundário* ( *do ponto de vista tópico – caracteriza o sistema pré-consciente – consciente; do ponto de vista econômico-dinâmico – a energia começa por estar “ ligada” antes de se escoar de forma controlada; as representações são investidas de uma maneira mais estável, a satisfação é adiada, permitindo assim experiências mentais que põem à prova os diferentes caminhos possíveis da satisfação).
As catexias provenientes de Vb tornam-se conscientes de acordo com determinadas regras; essa consciência secundária do pensamento é posterior no tempo e se liga à ativação alucinatória das representações verbais, os neurônios da consciência seriam também os da percepção e destituídos de memória.
Continua na próxima edição, próxima semana…
By: Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.