… “durante o sonho o inconsciente não pode oferecer nada mais que a força pulsionante para um cumprimento de desejo?”
… “toda a complexa atividade de pensamento que se desenrola desde a imagem mnêmica até o estabelecimento da identidade por obra do mundo exterior não é outra coisa que um rodeio para o cumprimento de desejo, rodeio que a experiência tornou necessário. Portanto, o pensar não é senão o substituto do desejo alucinatório”…
“Não seio, logo penso!”*
Filogeneticamente o homem perdeu os instintos que estão inscritos nos animais, sendo estes substituídos por um circuito pulsional, necessitando de um objeto externo que o protegesse dessa pressão constante, a força pulsional. Como o objeto não dá conta, a mãe não é onipresente, o indivíduo é obrigado a construir uma malha que o proteja da invasão pulsional, construindo o aparelho psíquico, o aparelho representacional, que são as primeiras vivências que terá com o objeto, experiências representadas.
O bebê faminto grita ou dá pontapés, mas a situação permanece a mesma, pois a excitação proveniente de uma necessidade interna não se deve a uma força que produza um impacto momentâneo, mas a uma força que está continuamente em ação. Só pode haver mudança, através do auxílio externo, chega-se a uma vivência de satisfação que põe fim ao estímulo interno. Um componente essencial dessa vivência de satisfação é uma percepção específica (a nutrição) cuja a imagem mnêmica fica associada, ao traço mnêmico da excitação produzida pela necessidade. Em decorrência do vínculo assim estabelecido, na próxima vez em que essa necessidade for despertada, surgirá de imediato uma moção psíquica que procurará recatexizar a imagem mnêmica da percepção e reevocar a própria percepção, restabelecendo a situação da satisfação original. Uma moção dessa espécie é chamada de desejo (arranca do desprazer e aponta para o prazer); o reaparecimento da percepção é a realização do desejo, e o caminho mais curto para essa realização é a via que conduz diretamente da excitação produzida pela necessidade para uma completa catexia da percepção, a alucinação. O objetivo dessa primeira atividade psíquica é produzir uma identidade perceptiva (algo perceptivamente idêntico à vivência de satisfação) _ uma repetição da percepção vinculada à satisfação da necessidade.
Para Fecher, a cena de ação dos sonhos é diferente da cena da idéia representacional de vigília, principalmente ao que concerne a localização psíquica, correspondendo a um ponto no aparelho psíquico em que se produz um dos estágios preliminares da imagem.
O aparelho psíquico é um instrumento composto, a cujos componentes dá-se o nome de instâncias ou sistemas, os quais têm um sentido, uma direção, parte de estímulos (internos ou externos) e termina em inervações; um processo que tende à descarga.
O aparelho tem uma extremidade sensorial e uma extremidade motora, na primeira recebe as percepções; na segunda abre as comportas da atividade motora. Uma primeira diferenciação na extremidade sensorial permanece no aparelho psíquico, um traço das percepções que incidem sobre ele, traços mnêmicos.
Nossas percepções acham-se mutuamente ligadas em nossa memória segundo a simultaneidade da sua ocorrência, associação. A associação consistiria no fato de que, em decorrência de uma diminuição das resistências e do estabelecimento de vias de facilitação, a excitação é mais prontamente transmitida de um primeiro elemento mnêmico, para um segundo do que para um terceiro. Assim conforme as primeiras experiências vão marcando o aparelho, vão se conectando e nos ensinando a descobrir maneiras de realizar os nossos desejos e simultaneamente vamos aprendendo a pensar.
O último dos sistemas localizados na extremidade motora é o pré-consciente, indicando que os processos excitatórios nele ocorridos podem penetrar na consciência sem maiores empecilhos, desde que certas condições sejam satisfeitas: por exemplo, que eles atinjam certo grau de intensidade, que a função que só pode descrever como atenção esteja distribuída de uma maneira. Também é o sistema que detém a chave do movimento voluntário. O sistema que está por trás dele é o inconsciente, pois não tem acesso à consciência senão através do pré-consciente, ao passar pelo qual seu processo excitatório é obrigado a submeter-se a modificações.
O impulso para a formação dos sonhos está no sistema Inconsciente, ligando-se a pensamentos oníricos pertencentes ao sistema Pré-Consciente, quando se considera apenas o desejo onírico, descobre-se que a força propulsora da formação dos sonhos é fornecida pelo inconsciente.
A excitação se move em direção retrocedente em vez de propagar para a extremidade motora do aparelho, ela se movimenta no sentindo da extremidade sensorial e por fim, atinge o sistema perceptivo, dando aos sonhos um caráter regressivo.
Durante o dia há uma corrente contínua que flui do sistema psíquico das percepções em direção à atividade motora, essa corrente cessa a noite e não constitui obstáculo a uma corrente de excitação que flua em sentido oposto, a exclusão do mundo exterior.
A idéia de que a razão porque os sonhos são invariavelmente realizações de desejos é que eles são produtos do sistema Inconsciente. Atividade que não conhece outro objetivo senão a realização de desejos e não tem sob seu comando outras forças senão as moções de desejo.
O desejo que é representado num sonho tem que ser um desejo infantil, que se origina do Inconsciente, e trata-se de um desejo não realizado e não recalcado da vida de vigília. O sonho é um ressurgimento da vida anímica infantil já suplantada; o sonho é a realização alucinatória de um desejo sexual infantil reprimido; só o desejo pode colocar nosso aparelho anímico em ação. Assim, o pensamento não passa do substituto de um desejo alucinatório, ou seja, “não seio, logo penso!”
* Frase dita pelo professor Ede de Oliveira.
Por: Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu