Imagem Especular e Corpo Social

 Quando fui convidada a discorrer sobre este tema, com o objetivo de ligá-lo aos transtornos alimentares, fiquei me questionando até que ponto pode a imagem especular ser influenciada pelo ambiente e como a construção da imagem especular pode gerar um transtorno alimentar, ou se é a imagem especular, no caso o corpo social, que gera o transtorno alimentar? O que vem primeiro, o ovo ou a galinha?

Para tentar resolver a questão, fui buscar nos primórdios do desenvolvimento do esquema corporal e em seguida, da imagem especular, se num determinado ponto desse desenvolvimento estamos suscetíveis às influências externas, pela não construção e desenvolvimento de um ego integrado, mas de um ego esfacelado e muitas vezes simbiótico na relação com os primeiros objetos.

Segundo Françoise Dolto (1992), o esquema corporal especifica o indivíduo enquanto representante da espécie, quaisquer que seja o lugar, a época, ou as condições nas quais ele vive; é o interprete da imagem do corpo, permitindo a objetivação de uma subjetividade; estrutura-se pela aprendizagem e experiência; é em parte inconsciente, mas também consciente.

Trocando em miúdos, estamos falando sobre a filogênese (desenvolvimento da espécie) e da ontogênese (desenvolvimento de cada sujeito, dependendo da sua história de vida). Assim, o esquema corporal vai se desenvolver de qualquer modo, independente da vontade ou não do sujeito; já que todos nós estamos fadados a um desenvolvimento neuromotor inerente à própria espécie. E a partir desse esquema corporal, das experiências sentidas e vividas, vamos construindo uma imagem especular, que se objetiva, isto é, se torna consciente, no momento em que o representamos, no desenho da figura humana, por exemplo.

Quando chega um paciente em nossa clínica, com uma demanda motora, um dos aspectos que iremos investigar é o esquema corporal: ele já o desenvolveu, sabe nomear as partes do corpo, sabe desenhar uma figura humana? Na realidade, o que estamos investigando não é o esquema corporal, mas a imagem corporal, que é a representação do corpo e da imagem que fazemos desse corpo, isto é, a imagem que temos de nós mesmos; porque o esquema corporal vai se desenvolver por meio das sensações interoceptivas, proprioceptivas e exterioceptivas.

Dolto (1992) ainda nos chama a atenção para a seguinte questão: se o esquema corporal, é em princípio, o mesmo para todos os indivíduos, a imagem corporal é peculiar a cada um, porque está ligada ao sujeito e a sua história; pode ser considerada como a encarnação simbólica inconsciente do sujeito desejante e é específica de um tipo de relação libidinal.

A imagem não está imbuída de sensações, mas é o símbolo das percepções e dos sentimentos. Somos a única espécie de seres vivos que de frente para um espelho, reconhecemos que a imagem refletida nele é apenas um símbolo e fazemos graça. Outras espécies, como a do chimpanzé, quando confrontados com o espelho, passam a mão por trás do mesmo e desistem, porque não se reconhecem como refletidos no mesmo. Mesmo nós humanos, levamos dois anos para compreender que a imagem especular é somente uma representação, um reflexo de nosso corpo num espelho e ela se desenvolve a partir da relação mãe-bebê, passando a ser um sujeito desejante, porque nos vemos também através dos olhos do outro.

A imagem corporal é o que se vive numa relação, por isso é sempre dinâmica. Na sócio-psicomoticidade Ramain-Thiers, não se utiliza espelho na sala onde será realizada a sessão de movimento, para não se quebrar a imagem corporal que irá sendo construída durante a execução dos movimentos. Porque para Simonne Ramain, a imagem corporal é construída por meio da conscientização das possibilidades do movimento e da postura corporal.

A imagem corporal, advinda da imagem especular, é a cada momento, memória inconsciente das vivências relacionais e, ao mesmo tempo, ela é atual, viva, em situação dinâmica, dependendo do papel que estamos desempenhando num determinado momento, camuflável ou atualizável na relação aqui e agora, por qualquer expressão “linguageira”: desenho, modelagem, criação musical, plástica, assim como a mímica e os gestos.

A imagem corporal pode ser expressa em qualquer tipo de linguagem. Na África, há uma tribo onde a mãe grávida, compõe uma canção para o seu filho que irá nascer. E esta canção é cantada em seu nascimento, quando aniversaria, quando dá os primeiros passos, quando entra na escola, quando se forma, quando se casa… Nos acontecimentos mais importantes de sua vida, acompanhando-o até no seu velório e enterro, como um registro, uma marca, uma imagem sonora de sua existência.

Estamos falando da imagem de base, a que permite à criança uma mesmice de ser, em uma continuidade narcísica ou em uma continuidade espaço-temporal que permanece e vai se preenchendo desde o nascimento, apesar das mutações da vida e dos deslocamentos impostos ao corpo e, a despeito das provas que ela é levada a submeter-se.

Esta imagem de base é a que já nasce com o indivíduo desde o namoro dos pais e se abre no, que Winnicott chama de espaço potencial. Garante ao sujeito a mesmice de ser, porque ele se reconhece como pertencente ao grupo familiar e ao seu ambiente. Será narcisizado pelos pais porque foi querido, foi desejado. Os pais também abrem um espaço temporal para se dedicarem a esta criança.

Para Winnicott (1983), a imagem corporal será desenvolvida ou não, por meio da função materna. A mãe capaz de alimentar o seu bebê é aquela cuja função de alimentar vai além da necessidade biológica, de sobrevivência. Faz parte da função materna segurar o seu bebê, envolvê-lo, contê-lo. O sentimento de estar vivo, de se reconhecer como tal, se dá primeiro pelo toque da mãe no corpo do bebê. O limite do seu corpo, o seu contorno é dado pela mãe. Se não há um limite dado pela manipulação, aparece a sensação de estar a diluir-se.

A mãe considerada suficientemente boa é aquela que se envolve com o seu bebê e a princípio não se diferencia dele; mas aos poucos vai se voltando para outros interesses e deixa o bebê viver como um ser diferenciado, independente dela. O diluir-se é uma das questões levantadas pelas anoréxicas, quando a imagem de base não foi instalada.

Winnicott também vai falar da função do espelho: “Sou visto, logo existo”. Para que alguém se veja, é preciso que antes tenha sido visto pelo outro. Quando o existir de uma criança é visto e compreendido por alguém, é devolvida, como a face refletida em um espelho, a evidência de ter sido percebida como existente evidência de que tanto necessita.

A brincadeira: “pude/achou”, é um bom exemplo de como a criança que ainda não desenvolveu a sua imagem especular age. Primeiro, ela gosta da brincadeira de se esconder e ser procurada, porque desta maneira, esta sendo vista, encontrada. Segundo, ela começa a brincadeira escondendo somente a sua cabeça e ficando com o resto de seu corpo a descoberto. Isto porque, como ela ainda não desenvolveu a imagem especular, ela se olha e vê somente partes do corpo, ela acha que escondendo a cabeça, estará também escondida para o outro. À medida que vai adquirindo a imagem especular e em conseqüência, a imagem corporal, vai percebendo que é preciso esconder também as outras partes de seu corpo, para não ser encontrada. A delícia de brincar de esconde-esconde permanece, mas com outra finalidade, agora pelo prazer de não ser encontrada, já que desenvolveu e garantiu para si mesma uma mesmice de ser, uma imagem de base que permitirá ser vista como um ser diferenciado, subjetivo.

Como não conseguimos nos ver por inteiro, necessitamos de um espelho, ou de alguém que nos olhe e diga: “Puxa, hoje você esta bonita!” Alguém que nos coloque no ideal de ego, ser acreditado que somos capazes naquilo que fazemos.

Os transtornos alimentares são uma distorção da imagem corporal? Houve falha na função do espelho?

Pesquisas mostram que há mais jovens mulheres anoréxicas do que homens. Levantando-se a questão da feminilidade. Seria uma negação do feminino, não ter formas, parar de menstruar, surgindo o nascimento de pelos. As mães não as vêem como sujeitos desejantes e mantém o controle, a simbiose. Não são vistas, provavelmente não tiveram a função do espelho, não desenvolveram a imagem especular, a imagem corporal acabou ficando distorcida.

Meninas anoréxicas não sabem se estão gordas, magras, a sensação é de estar se esparramando. Não sabem a forma de seu corpo, porque isso não foi interiorizado. Não foram vistas como separadas e diferentes de suas mães. A sensação é de não pertencimento, de não saber o seu lugar no mundo.

A distorção da imagem corporal seria uma falha na fase simbiótica?

Alguns autores relacionam a distorção da imagem corporal com possíveis falhas na fase simbiótica. A fase simbiótica é um estado diferenciado ou fusional que o bebê e a mãe vivem, possibilitando a construção da capacidade de viver, após a fase simbiótica, a separação- individuação.

O nascimento causa desamparo, que só é superado pela dedicação e cuidado materno.

A fase simbiótica é a que a mãe se volta para o bebê, é onde acontece a libidinização. O bebê se sente acolhido e protegido no seu desamparo, acolhido em suas angústias.

A importância da simbiose é produzir uma membrana capaz de impedir que o bebê sofra uma invasão precoce, pelas tensões da realidade, e mitigue as sensações internas.

Dentro desse interjogo mãe-bebê, que vai acontecendo uma diferenciação gradual, iniciando a formação da imagem especular; quando a criança se reconhece como um ser diferente de sua mãe.

Numa pesquisa realizada por antropólogos, descobriram-se algumas crenças dos índios Ianomâmi, que vivem no interior da floresta amazônica:

  • “As crianças são incompletas enquanto não encontram o peito materno.”
  • “O bebê não nasce no parto, mas do primeiro gole de leite.”
  • “Ao ser aceito no seio, terá o seu lugar garantido na aldeia.”

Vejam, que às vezes culturas consideradas “atrasadas”, são mais sábias que a nossa. Porque, o bebê enquanto sujeito dependente, se não encontrar o seio não só morrerá, como não conseguirá estabelecer uma relação libidinal que servirá de amparo. O leite é a garantia da sobrevivência e da libidinização que virá com ele: são as gotinhas de libido citadas por Melanie Klein. Só será reconhecido como membro da tribo, se sua mãe voltar o seu olhar para ele, estabelecendo a imagem de base, logo existirá.

Quando as anoréxicas se pronunciam, encontramos as seguintes falas:

  • “Sabe quando você chega numa festa e se sente por fora, totalmente bico? Assim eu me sinto no mundo…”
  • “Sabe como eu me sinto na minha casa? Um estorvo. Acho que desde quando eu nasci…”
  • “Magra eu me sinto mais contida”.
  • Tenho medo de engordar e me diluir.”
  • Me sinto esparramando quando sento no banco do ônibus e não tem ninguém do meu lado.”

Estas falas nos mostram as falhas na imagem especular, que não foram reconhecidas pela mãe e nem pelo grupo familiar. Não se sentem pertencentes, não foi aberto um espaço potencial para elas, a imagem de base não foi desenvolvida. As extremidades e o volume ficam mais próximos, já que não tiveram a contenção materna. O engordar é se diluir porque se sentem desamparadas: “O leite se transformou em veneno!”  Pedem por alguém ao seu lado, alguém que consiga conter as suas angústias.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu. 

 

Comentários desativados em Imagem Especular e Corpo Social

Arquivado em Artigos - Psicanálise, Artigos - Psicomotricidade

Os comentários estão desativados.