Quando Freud substituiu o uso da anamnese pela hipnose, sabia da dificuldade que o paciente tinha em buscar na lembrança, “reminiscência”, o que havia acontecido em anos anteriores, gerando o evento desencadeador do(s) sintoma(s) atual(ais). Usou a hipnose numa tentativa de ampliar a consciência e ter acesso às possibilidades associativas e à representação do conflito psíquico. O “esquecimento” das lembranças é intencional e desejado, e seu êxito é aparente. As experiências que desempenharam um papel patogênico importante, são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas; quando ele é incapaz de relembrá-las. Apenas quando o paciente era inquirido sob a hipnose essas lembranças emergiam com a nitidez inalterada de um fato recente.
O que provoca os sintomas é o “acidente”, a causa atuante da doença, não é o dano físico insignificante, mas o “afeto” do susto – o trauma psíquico- a angústia, a vergonha ou a dor física. Com grande freqüência é algum fato da infância que estabelece um sintoma, mais ou menos grave, que persiste durante os anos subsequentes.
A criança vai formando um acúmulo de representações recebidas, principalmente, da pessoa que a cuida, a trama do aparelho psíquico. E este se organiza ao redor das representações e das proibições culturais, constituindo a estrutura da trama.
O aparelho psíquico precisa se manter equilibrado dentro de um nível de carga, afeto, o mais baixo possível. Quando o nível de carga se eleva coloca em risco o aparelho que necessita se defender. O limite de carga vai depender da trama representacional – princípio da constância. O reservatório psíquico é diferente para cada sujeito; quanto mais pobre é a trama mais fácil de implodir; quanto mais rica menor é a possibilidade que a implosão aconteça.
O aparelho psíquico tem que ser pego de surpresa, o trauma entra com violência, não está preparado para enfrentá-lo, não dando tempo de associar. Para se defender o aparelho psíquico permite que a carga entre e negocia para que fique quieta, transformando-a em sintoma; o sintoma em geral é consciente o que não aparece é a causa (representação isolada); o sintoma passa a se alimentar da carga, mas não sabe da representação que o causa.
A dissociação de uma representação que fica isolada (incompatível), tem muita carga e precisa ser descarregada; é colocada para fora e atinge a motricidade, passagem da carga energética para o corpo, surgindo o sintoma como defesa.
O conflito psíquico está justamente em manter a carga, o afeto não ab-reagido, quieta, não permitindo que venha à tona, deslocando-a para sintomas corporais; podendo o ego continuar alheio a ela.
Para a aquisição da histeria deve haver o desenvolvimento de uma incompatibilidade entre o ego e alguma idéia a ele apresentada – conflito moral versus erótico.
O método histérico de defesa reside na conversão da excitação em uma inervação somática; a vantagem disso é que a idéia incompatível é forçada para fora do ego consciente. Em troca, essa consciência guarda a reminiscência física surgida por meio da conversão e sofre por causa do afeto que se acha de forma mais ou menos clara ligado àquela reminiscência. A situação assim provocada passa a não ser suscetível de modificação, pois a incompatibilidade que teria exigido uma eliminação do afeto não existe mais, graças ao recalque e à conversão.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu – 2002 (curso: Formação em Psicanálise, Instituto Sedes Sapientiae).