Trabalho complexo e de ritmo intenso
A criança é movimento e o afeto e o trabalho é desgatante mesmo. O aviso é do psciólogo clinico Drausio Martins Ribeiro, especialista em psicologia infantile e de adolescentes. Segundo ele, o trabalho infantil é triplo: envolve a criança, os pais e a escola e deve ser tão dinâmico como é o seu crescimento. Com 23 anos de atuação na área infantil, Drausio diverte-se ao dizer que não trabalha atualmente com adultos porque está muito “regredido”, mas o fato é que a complexidade e o ritmo do trabalho exigem que o profissional tenha fôlego de sete gatos. “Elas estão em ebulição constante. Além de gostar muito de criança deve-se ter muita paciência”.
O psicólogo em geral não atende crianças muito pequenas porque ao fazer o psicodiagnóstico observa que a maioria dos problemas relaciona-se aos pais. “A não ser que haja alguma patologia específica”. Quando maior, a criança já vive um processo de so- cialização, em que existe maior amplitude de relações, e começa a dar outros tipos de respostas. Já o psicólogo clínico com especialização em psicanálise, Antonio Geraldo de Abreu Filho, atende crianças desde que já estejam falando e, diferente de Drausio, não trabalha com os pais. “Dentro de minha vivência, a experiência foi muito complicada. Quando necessário, encaminhoos pais para outros profissionais e privilegio a criança”. Para ele o trabalho infantil é gratificante e também bastante frustante, mas no cômputo geral vale a pena. O psicólogo, que iniciou seu trabalho clinic há 25 anos com crianças e hoje atende também adolescents, adultos e mais recentemente idodos, lembra Melaine Klein: “A meta de nosso trabalho é assegurar o bem estar da criança e não a gratidão de seus pais”.
Já para Drausio, o vincula com os pais é fundamental no trabalho infantil. “Eles devem ter confiança e clareza sobre o que está acontecendo durante o processo terapêutico”. Caso contrário, o psicólogo lembra que não é raro os pais boicotarem o trabalho do psciólogo.
Ele realiza entrevistas assitemáticas com os pais, e se necessário, encaminha-os para um trabalho de orientação ou terapia de casal, de família ou individual. As entrevistas são convocadas pelo terapeuta, pela criança ou mesmo pelos pais. “Mas sempre acontecem junto com a criança , que mesmo quando pequena, está ligada, participa”.
Formação
Assim como é importante encontrar um método, um estilo prórpio de atuação, é fundamental para quem deseja lidar com crianças buscar uma linha de onduta, uma ferramenta com a qual se tenha total identidade. Antes de ministrar aulas no no Instituto Pieron, Antonio Geraldo trabalhou em psicopedagogia e ao notar que as causas dos problemas eram mais profundas, frequentou aulas de de psicodiagnóstico e ludoterapia no próprio Instituto. “Primeiro procurei alguns aportes teóricos para depois buscar respaldo na área emocional”.
O psicodiagnóstico para Drausio é a porta de entrada para o trabalho infantil. “Ele permite ver se a criança está mesmo tendo dificuldades ou se é apenas um reflex de uma situação do ambiente”. O fundamental num processo de psicodiagnóstico, explica o psicólogo, é saber fazer uma boa anamnese, complementar com os testes específicos e depois encaminhar para as condutas necessárias. Segundo ele, as condutas tanto podem ser psicoterapêuticas como atividades que também possam ter uma ação terapêutica. “A prática de esportes e aulas de artes”, exemplifica.
A escolha de um ferramental adequado deve ser sempre acompanhada de uma boa supervisão, lembram os psicólogos.
“A supervisão nos ajuda a desenvolver uma escuta e um olhar clínico”, explica Antonio. Drausio recomenda que após frequentar um bom curso de Psicodiagnóstico e Psicodinâmica, o professional deve com o tempo conhecer a dinâmica da família. Se possível, fazer um curso de terapia familiar. “Para a compreensão da dinâmica infantil, essas informações são muito importantes mesmo que não se vá trabalhar especificamente com a família”, diz Antonio, lembrando que a formação de grupos de estudo é fundamental para que o professional nunca pare de reciclar seus acontecimentos e trocar experiências.
Porém, alertam os psicólogos, todo esse investimento por parte dos futuros profissionais pouco adiantará se ele não tiver passado por um processo terapêutico ou de análise. “Me surpreendo ao ver que a maioria dos meus alunos não está em processo terapêutico”, diz Antonio, lembrando sobre a responsabilidade, seriedade, extensão e repercussões do trabalho do psicólogo. “O bisturi tanto pode salvar uma vida como ceifá-Ia”.
Com Antonio Geraldo de Abreu Filho
PUBLICAÇÃO
Revista Instituto Pieron – n. 98 – Julho / 1998
Para saber mais, leia:
Freud – Uma Vida para o Nosso Tempo
Peter Gay – Companhia das Letras
O mundo e a obra de Melaine Klein
Phyllis Grosskurth – Imago Editora