Educação Infantil “Psicomotricidade – Um sistema Integrado de Educação a Aprendizagem

Quando assumi a orientação pedagógica de uma escola de educação infantil particular de pequeno porte, comecei a observar as dificuldades motoras da grande maioria das crianças com idades entre 1 a 7 anos.

A escola ficava situada num bairro de classe média alta e as crianças moravam em apartamentos ou casas, mas pouco brincam fora das mesmas, por falta de tempo dos pais que trabalhavam fora, por superproteção, ou até mesmo por comodismo. Notei crianças hipotônicas, com andar de “periquito” (ponta dos pés), descoordenadas, inseguras, dependentes, com uma verbalização riquíssima, mas que falhavam na execução dos exercícios propostos em qualquer área.

Resolvi aplicar o teste do “Perfil Motor” de Ozeretski e Guilmain, observando algo muito interessante: nas provas de velocidade e coordenação de mãos, as crianças tinham um rendimento acima de sua idade cronológica, porém nas provas de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos, o rendimento caía assustadoramente, apresentando uma leitura de déficit motor. Isto porque as crianças passavam muito tempo em fente da televisão, vídeo-game ou computador, as chamadas babás eletrônicas.

A falha estava portanto no global, em tomar consciência do corpo pouco explorado, em não dominá-lo. A programação oferecida era a tradicional, o professor trazia a informação tentando passá-la para os alunos através da memorização. Até as aulas de educação física eram ministradas tendo o professor como modelo a ser copiado nos exercícios propostos.

Em 1990 reformulei toda a programação da escola, com anuência dos diretores e a colaboração dos professores na preparação do material necessário.

Baseei-me nas quatro grandes áreas do desenvolvimento humano, que seguem abaixo, adaptando a metodologia de Simonne Ramain, com a filosofia de Jean Piaget. Eu já havia experenciado a eficácia do método como reeducação em consultório, queria testá-lo agora como medida profilática.

Sócio-Emocional:

  • auto-conceito;
  • socialização;
  • estudos sociais.

Linguagem:

  • oral;
  • escrita;
  • inglês (oral);
  • música;
  • expressão corporal.

Funções Psiconeurológicas:

  • educação física;
  • coordenação visomotora;
  • percepções: visual, auditiva, tátil,
  • olfativa e gustativa;
  • orientação espaço-temporal.

Operações Cognitivas:

  • atenção e concentração;
  • análise e síntese;
  • memória;
  • comparação;
  • classificação;
  • seriação;
  • ciências;
  • raciocínio lógico.

O método de Simonne Ramain toma como base uma das leis do desenvolvimento humano (passamos por fases, períodos ou estádios de progressos, paradas e retrocessos, para depois avançarmos novamente) e usa uma progressão de atividades diferente da tradicional, em “bico de serra”, os exercícios obedecem o mesmo critério da lei citada acima, podendo oscilar entre o fácil, o difícil e o médio. Tem como técnica o não uso da borracha, utilizando lápis de cor (vermelho, azul e verde) para a correção, com a finalidade do desenvolvimento maior da atenção e concentração; as instruções dos exercícios não são repetidas pela professora, quando não ouvidas ou compreendidas, e sim por uma criança que escutou ou entendeu, trabalhando-se com isso a memória; os materiais são simples, utilizando-se bastante sucata e diferentes tipos de papéis; a distribuição dos materiais é realizada de várias maneiras, com a intenção de trabalhar a flexibilidade; o professor não é o centro das atenções, os alunos os são, o professor é apenas quem organiza as propostas trazidas pelas crianças, ou quem propõe, quando o aluno não o faz.

A princípio, os professores ficaram bem inseguros e com medo da mudança, o que já era esperado. Tive que sensibilizá-los propondo tarefas adequadas a sua faixa etária; depois foi preciso mostrar como se aplicavam alguns dos exercícios que teriam que trabalhar. A medida que foi ficando patente as mudanças que ocorriam nas crianças e a evolução rápida obtida, foram ficando mais seguros e dispostos a participarem mais efetivamente da nova proposta.

Após um ano de experiência, tornei a aplicar o teste do “Perfil Motor” de Ozeretski e Guilmain e os resultados nos surpreenderam. Os níveis elevaram-se em todas as provas, principalmente nas de equilíbrio, coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos. E o mais comemorado pelos pais das crianças do pré (nossa última série), a entrada nos colégios que haviam escolhido. Uma criança passou em primeiro lugar num grupo de 89; outra em quinto num grupo de 200 crianças. A escola passou a ser reconhecida e conhecida pelos colégios do bairro, sendo recomendada pelas instituições  que não teinham pré-escola.

A minha satisfação maior foi ter revertido a situação motora de algumas crianças, de inabilidade, para segurança, alegria e disponibilidade ao executar qualquer tarefa proposta e de prevenir os distúrbios motores que causam algumas das dificuldades de aprendizagem. No atendimento de 735 crianças de 1990 para cá, sendo 102 do Pré-Primário, somente 5 não conseguiram alcançar os pré-requisitos básicos para entrarem nos colégios que optaram, correspondendo a 4,9%.

Por Berenice Ferreira Leonhardt Abreu

BIBLIOGRAFIA

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COSTALLAT; Dalila M. – “Psicomotricidade” – São Paulo – Editora Globo – 1976.

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DIENES; Z.P.; Golding; E.W. – “Primeiros Passos em Matemática” – São Paulo – Editora Herder – 1969.

FONSECA; Vítor; Mendes; Nelson – “Escola, Escola, Quem és Tu?” – Porto Alegre – Editora Artes Médicas – 1987.

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GUILLARMÉ; J.J. – “Educação e Reeducação Psicomotora” – Porto Alegre Editora Artes Médicas – 1975.

KOTHE; S. – “Pensar é Divertido” – São Paulo – E.P.U. – 1970.

PIAGET, J.J. – “Para Onde Vai a Educação?” – Rio de Janeiro – Editora José Olímpio – 1975.

POPPOVIC; Ana M. – “Pensamento e Linguagem” – São Paulo – Abril Educação – 1980.

RATHS; S. – “Ensinar a Pensar” – São Paulo – E.P.U. – 1970.

THIERS; S. – “Sócio-Psicomoticidade Ramain-Thiers” – São Paulo – Casa do Psicólogo – 1994.

 

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